quinta-feira, 14 de abril de 2011

Aula 3 - Memorial: Minha História com a Educação Infantil



Creio que o elo entre minha opção profissional na vida adulta e minha criança interior, origem dos registros em minha memória do universo infantil é o forte apelo que sempre trouxe em mim pelo brincar ao ar livre, em contato com a natureza.

Seguindo esse fio condutor recordo-me do quanto vivi com dificuldade a experiência de crescer, de deixar de ser criança. Parece que não queria deixar o encanto desse espaço-tempo que, para mim, significou a liberdade de expressão, a vivência da criatividade na expressão plástica, corporal, musical. A culminância desse encanto foi a marcante experiência de freqüentar a Escola Parque, projeto de Anísio Teixeira para a recém-inaugurada capital do país que, na época, vivia sua ‘primeira infância’.

O projeto pedagógico da Escola Parque consistia em oficinas de artes no contra-turno escolar, distribuídas em quatro dias na semana. O quinto dia da semana era ‘folga’ o que, para mim, era uma ‘tortura’! Contava os minutos durante a manhã na escola-classe, como eram chamadas as escolas, na ocasião, para ver chegar a hora de meu deleite: ir par a Escola Parque! Recordo-me de estar doente, com febre(!), e “fugir de casa” para ir para as aulas de artes, só para não faltar! Eram oferecidas oficinas de artes cênicas; música com piano tocado ao vivo em sala de aula; artes industriais; na qual aprendíamos a trabalhar com madeira, couro, etc; Literatura com hora do conto e criação literária, em uma linda e iluminada biblioteca; e artes plásticas, com materiais e técnicas que iam desde giz de cera ao nankin, aquarela e ao uso do spray para pintar grandes painéis, bambus, etc. Indescritível o que aquele universo significava para mim! E ainda, aulas de Educação Física e de natação, com direito a Desfile da Primavera na W3, Festival de Cinema, Festival de Música, que acontecia no melhor cinema da cidade, na época. Era o evento do ano que reunia pais, professores e crianças em frenesi. É óbvio, essa experiência me marcou profundamente, também constatado pelo modo traumático como vivi o término das séries iniciais, quando ocorre a passagem para a 5ª serie do E. Fundamental e não há mais Escola Parque.

Paralelo a essas vivências, com minha família (10 irmãos!) passávamos nossas férias de fim de ano na fazenda do meu pai, durante dois meses(!), tomando banho de rio, comendo fruta no pé, andando à cavalo, comendo comida feita no fogão a lenha... Tudo de bom! O contato com a natureza foi outra experiência que só firmava em mim o registro do prazer pela liberdade, pelo brincar solto, pela espontaneidade do pé-no-chão.
Já na minha adolescência, lá pelos 15 anos, buscava tudo o que me possibilitasse o movimento, a expressão livre. Fiz ballet, ginástica olímpica, capoeira, teatro, dança espontânea, violão... As artes, a música me embalavam! No início de minha juventude só tinha uma certeza: escolher uma profissão na qual pudesse trabalhar com crianças, ao ar livre, com expressão, plástica, musical, corporal. Não tive qualquer dúvida: Educação Física! Aos 17 anos iniciava faculdade e ingressei em meu primeiro trabalho: Recreação infantil em um clube, no contra-turno escolar daquelas crianças! Direcionei, portanto, minha formação profissional como professora de Educação Física para o tema do Desenvolvimento Infantil.

Descobri o universo da unidade do Ser Humano por meio da Psicomotricidade quando, na graduação, questionava a abordagem mecanicista e dualista que norteava, na época, o enfoque pedagógico na área da Educação Física.

Especializei-me, a partir daí, nas áreas terapêutica e de reeducação: Educação Psicomotora, Educação Especial e Psicoterapia Corporal, na linha da Biossíntese. As experiências profissionais solidificaram os conhecimentos teóricos e abriram novas perspectivas. Fundamentada nos princípios da Psicomotricidade, realizei trabalhos no âmbito da Educação Especial utilizando a abordagem corporal na educação precoce (0 a 3 anos) e na hidroestimulação, na dimensão das relações pais-filhos.

Atenta também ao meu crescimento pessoal e profissional, residi na Europa por alguns anos: inestimável experiência de vida quando, além da experiência única de tornar-me mãe, iniciei formação em Biossíntese e atuação profissional como terapeuta corporal junto a casais grávido e díades mães-bebês, realizando cursos de Preparação para a Maternidade e Paternidade.

Ao retornar ao Brasil ingressei na Rede Sarah de Hospitais – Brasília e São Luis, onde vivi enriquecedora experiência com crianças deficientes ou em condições especiais, em dinâmicas corporais interativas pais-filhos favorecendo a qualidade do vínculo pela riqueza na variedade dos canais e modalidades de interação que a abordagem corporal lúdica proporcionava por meio do brincar; práticas estas que alicerçaram as bases de meu crescente interesse pelo estudo do acompanhamento e intervenção psicopedagógica junto à díade mãe-filho.

Com essa bagagem parti para um imenso desafio e antigo sonho: implantar um centro de lazer, nos moldes da Escola Parque de Brasília, utilizando as artes, suas ferramentas de expressão corporal, plástica, cênica e musical. Desse modo, implantei em Curitiba e assumi a Coordenação Pedagógica da Escola Parque – Centro de Lazer, Recreação e Qualidade de Vida, bem como do processo seletivo e capacitação da equipe de professores.

Alguns anos depois, a oportunidade de cursar Especialização em Saúde Perinatal, Educação e desenvolvimento do Bebê (UNB/FS, 2001) fomentou e aprofundou questões referentes aos aspectos afetivo-relacionais na construção do vínculo pais-filhos para o desenvolvimento saudável, como medida de prevenção e intervenção cada vez mais precoce junto à díade mãe-bebê, culminando na escolha desse tema de estudo em minha Dissertação de Mestrado: Sistemas Corporais Interativos Mãe-Bebê (UNB/FS, 2003).

Hoje, cada dia mais encantada com a primeira infância, colho frutos maduros desse percurso de vida, atuando no Programa de Educação Precoce da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal, que atende crianças de 0 a 3 anos que necessitam de acompanhamento e intervenção psicopedagógica. Portanto, eis aonde meu caminhar me trouxe e aonde hasteio minha ‘bandeira’ de luta: pelo reconhecimento dos direitos da criança pequena como integrante da primeira etapa da Educação Básica, inserida na educação Infantil; assim como, pelo “lugar do corpo vivo”, criativo, na infância, no âmbito escolar.

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